Quando alguém nos procura para abrir um restaurante, há uma frase que ouvimos frequentemente:
“Preciso de um plano de negócios porque quero pedir financiamento.”
Nos compreendemos…Porque é uma das maiores confusões que existem quando se fala em abrir um restaurante.
Um plano de negócios existe para ajudar o empresário a perceber se faz sentido investir.
Se, no final desse trabalho, o documento servir também para apresentar o projeto a uma instituição financeira ou a um investidor, tanto melhor.
Mas esse nunca deve ser o seu principal objetivo.
Neste artigo explicamos o que deve conter um plano de negócios útil e, acima de tudo, como pode utilizá-lo para tomar melhores decisões antes de investir.
Afinal, o que é um plano de negócios?
Existe uma imagem muito tradicional do plano de negócios, uma vez que a maioria das pessoas, mesmo as que já empreenderam, nunca viram um.
Um documento com dezenas de páginas, gráficos, tabelas, análises, projectões financeiras…
Tudo isso pode fazer (e quase sempre faz) parte de um plano de negócios.
Mas o documento, por si só, não cria um negócio melhor.
Na MesaOito gostamos de olhar para um plano de negócios de outra forma.
Para nós, é uma ferramenta de decisão.
Serve para responder a uma pergunta muito simples:
Vale a pena avançar com este projeto?
Se, no final do plano, essa resposta continuar pouco clara, então o plano não cumpriu o seu objetivo.
Se apresentar um plano de negócios tenho financiamento garantido?
A resposta é simples: não.
Esta é talvez a maior expectativa errada que encontramos porque muitas pessoas acreditam que basta apresentar um plano de negócios para conseguir um crédito.
Na prática, não funciona assim.
As instituições financeiras analisam muitos outros fatores. Entre eles:
- A capacidade financeira dos promotores;
- O capital próprio disponível;
- O risco do projeto;
- A capacidade de reembolso;
- As garantias existentes;
- O histórico financeiro, quando aplicável.
O plano de negócios é apenas uma parte dessa avaliação.
Por isso, tenha cuidado com quem lhe promete elaborar um plano de negócios “para conseguir financiamento”.
Nenhum consultor sério consegue garantir que um banco aprovará um crédito.
Mas há uma pergunta ainda mais importante.
Mesmo que conseguisse obter o financiamento, era isso que realmente queria?
Imagine que o plano de negócios foi construído com pressupostos demasiado otimistas apenas para tornar o projeto mais apelativo.
- Vendas que dificilmente serão atingidas.
- Custos subestimados.
- Prazos de retorno irrealistas.
Se o financiamento for aprovado com base nesse cenário, o banco até pode libertar o dinheiro, mas a responsabilidade de o devolver continuará a ser sua.
É por isso que, para nós, um plano de negócios nunca deve servir para criar uma realidade mais bonita do que ela é.
Deve servir para identificar riscos, testar diferentes cenários e perceber se o projeto continua a fazer sentido quando os números são realistas.
Porque, no final do dia, um plano de negócios não é um documento para convencer um banco.
É uma ferramenta para proteger o empresário de tomar uma má decisão.
O que tem de dar resposta um bom plano de negócios?
Mais importante do que ter um documento bonito é conseguir responder a algumas perguntas fundamentais.
Por exemplo:
- Porque vai existir este restaurante?
- Quem serão os clientes?
- Porque irão escolhê-lo?
- Existe mercado para este conceito?
- Quanto será necessário investir?
- Quanto terá de vender para ser rentável?
- Quanto tempo poderá demorar a recuperar o investimento?
- Quais são os maiores riscos?
Se estas perguntas não tiverem respostas claras, dificilmente o projeto estará preparado para avançar.
Por onde deve começar o planeamento?
Erradamente pensa-se num plano de negócios, e a primeira coisa que vem à cabeça são “As Contas”.
Pensar que um plano de negócios é, apenas, um exercício financeiro, é um erro crasso.
Na realidade, os números são apenas a consequência das decisões estratégicas.
Antes de construir projeções financeiras é preciso definir aspetos como:
- O conceito do restaurante;
- O cliente que pretende servir;
- A localização;
- O posicionamento no mercado;
- A concorrência;
- A proposta de valor;
- O plano de Marketing;
Só depois faz sentido começar a calcular investimentos, vendas ou rentabilidade.
A operação também faz parte do plano
Um restaurante pode ter um excelente conceito e estar num sítio fabuloso e, ainda assim, falhar na operação.
É por isso que, na MesaOito, não analisamos apenas o lado financeiro, e aconselhamo-lo a fazer o mesmo.
Dependendo do projeto, um plano pode incluir também uma reflexão sobre questões como:
- A experiência que o restaurante pretende oferecer;
- Os fluxos de trabalho entre cozinha e sala;
- O dimensionamento das equipas;
- O layout funcional dos espaços;
- Os equipamentos realmente necessários;
- A forma como tudo isto influencia os custos e a rentabilidade.
Muitas destas decisões parecem operacionais. Parecem que são coisas “para ver depois“…
Mas na realidade, têm impacto direto no investimento inicial, nos custos de funcionamento e na experiência do cliente.
A componente financeira do plano de negócios
Quando a estratégia está definida, faz então sentido trabalhar os números, que em parte são apenas consequência de todas as decisões anteriores.
É nesta fase que normalmente se estimam:
- O investimento inicial;
- O fundo de maneio necessário;
- Os custos fixos e variáveis;
- O ticket médio esperado;
- O ponto de equilíbrio;
- O prazo estimado de retorno do investimento.
Nenhum destes números deve ser encarado como uma garantia.
São cenários de trabalho que ajudam a perceber se o projeto continua a fazer sentido quando passa da ideia para a realidade.
Um dos erros mais comuns é confundir um restaurante lucrativo com um investimento já recuperado. São duas coisas diferentes. Um negócio pode começar a gerar resultados positivos e, ainda assim, precisar de vários anos para devolver todo o capital inicialmente investido

Excerto de uma projeção financeira que desenvolvemos no decorrer dum projeto. O exemplo demonstra porque é essencial analisar o fluxo de caixa acumulado e não apenas o resultado anual do restaurante.
O plano de negócios só serve até abrir?
Outro erro. Apenas depois de abrir é que o restaurante gera informação real.
As vendas deixam de ser previsões, os custos tornam-se conhecidos e efetivos, e tudo isto pode ser comparado com o plano prévio.
Mais importante ainda, pode ser refletido sobre o futuro.
“Com estes dados iniciais superiores ao que estimamos no plano de negócios, vamos conseguir reforçar a equipa mais cedo que o previsto”.
Por isso, um bom plano de negócios deve ser revisto e ajustado sempre que necessário.
Não é um documento para arquivar numa gaveta, definitivamente.
É um guia para acompanhar a evolução do projeto e apoiar a tomada de decisões.
Até quando posso fazer o plano?
É um erro fazer o plano demasiado tarde, ou após a toma de decisões. Se:
- O espaço já foi arrendado;
- As obras já começaram;
- Os equipamentos estão encomendados;
- …Ou até mesmo o restaurante já abriu…
É obvio que muitas das decisões mais importantes já foram tomadas, e aí, alterar o projeto torna-se muito mais caro.
Um plano de negócios cria muito mais valor quando é elaborado antes de assumir compromissos difíceis de voltar atrás.
Mas é melhor isso, que não ter plano algum. Pelo menos há clareza na direção.
Conclusão
Um plano de negócios não serve para prever o futuro.
Serve para reduzir a incerteza.
Quanto melhor compreender o mercado, o investimento necessário, a operação e os riscos do projeto, melhores serão as decisões que tomará.
Na MesaOito não desenvolvemos planos de negócios apenas para cumprir um requisito administrativo ou produzir um documento com dezenas de páginas.
Desenvolvemos ferramentas de trabalho que ajudam os nossos clientes a estruturar projetos, avaliar investimentos e tomar decisões com maior confiança.
Porque, antes de convencer um banco, um plano de negócios deve convencer quem vai investir o seu tempo, o seu dinheiro e o seu futuro naquele restaurante.

