Ontem, dia 28 de abril de 2025, Portugal viveu um apagão de energia sem precedentes: redes de telecomunicação falharam, caixas multibanco e terminais de pagamento deixaram de funcionar, e durante várias horas o país pareceu voltar, subitamente, a uma era pré-digital. Para muitos restaurantes e negócios, o sentimento foi unânime: pânico. Ninguém sabia exatamente o que fazer.
O que aconteceu afinal?
As causas ainda não estão claras, e circulam múltiplas hipóteses — umas mais plausíveis do que outras. Facto é que Portugal é considerado uma espécie de “ilha energética” na Europa. Estamos apenas ligados à rede elétrica dos nossos vizinhos espanhóis, o que, em teoria, até nos protege de algumas falhas, mas também nos isola em caso de colapso interno. No caso de ontem, a disrupção “supostamente” veio do lado de lá da fronteira, fazendo ruir o nosso sistema elétrico nacional, que estava exposto e despreparado.
O que aconteceu nos nossos negócios foi um reflexo do que se passou no país: estamos expostos a sistemas tão centrais que, quando falham ou são interrompidos, ficamos completamente vulneráveis. A disrupção ao nível dos sistemas e da infraestrutura digital expôs essa fragilidade — a da nossa dependência total da tecnologia.
O susto que expôs a falta de preparação
Nenhum POS funcionava. Sem rede, nenhuma app entregava comida. Nenhuma reserva podia ser confirmada. Algumas casas, simplesmente, encerraram. Outras tentaram resistir como podiam, mas sem um plano. E é aqui que a conversa fica séria: quantos restaurantes em Portugal têm um plano de contingência claro? Quem já refletiu sobre como operar caso falhe a energia, a internet, o gás ou até o abastecimento de água?
E se, em vez de horas, ficássemos sem eletricidade durante três dias? Ou uma semana inteira?
Crises energéticas, logísticas e humanas: planeia-se tudo isso?
Ter um gerador não é luxo, é planeamento, apesar de não estar ao alcance de todos. Ter uma alternativa offline para registar consumos ou pedidos é opcional, mas prudente como se viu. E isto aplica-se a outras dimensões do negócio em que um sistema é completamente dependente de outro:
- O que acontece se a equipa de cozinha falha por completo num dia-chave?
- Se a plataforma de reservas online deixar de funcionar durante uma semana?
- Se a leitura dos menus em QR-code falhar? Há alternativas?
A falta de planeamento não é só operacional, é estratégica. E os acontecimentos do dia 28 de abril foram um lembrete: estamos todos mais frágeis do que achamos. A restauração precisa de pensar como um sistema vivo, e isso inclui planear falhas e crises, porque elas chegarão, inevitavelmente, para nos surpreender a todos.
Na Mesa Oito temos insistido nesta conversa: Um negócio sustentável não se faz só de boas margens e pratos bonitos. Faz-se de sistemas, e planeamento para que funcionem “dentro do possível” mesmo quando tudo falha. E se este episódio serviu para alguma coisa, que sirva para despertar essa consciência.
Checklist rápida: está preparado para uma crise?
- O seu restaurante consegue operar temporariamente sem POS ou TPA?
- Tem menus físicos atualizados para substituir os QR-codes?
- Há um procedimento claro para registar pedidos e consumos manualmente?
- A equipa sabe como comunicar com os clientes durante uma falha digital ou energética?
- Existe um protocolo para lidar com reservas quando a internet falha?
- Tem contactos diretos dos fornecedores (telefone, email) fora de plataformas digitais?
- Sabe quanto tempo consegue manter produtos refrigerados em caso de falha elétrica?
- Possui um plano de evacuação ou resposta em caso de falha total de energia, gás ou água?
- A liderança sabe tomar decisões rápidas em cenário de falha crítica?
- Há alguém responsável por ativar o plano de contingência e orientar a equipa?
Se a resposta a duas ou mais destas perguntas for “não”, talvez seja mesmo hora de nos sentarmos à mesa — não para servir pratos, mas para desenhar planos.

