À primeira vista, parece uma pergunta estranha.
Mas basta uma pesquisa rápida nas redes sociais para encontrar centenas de publicações que afirmam que o figo “não é vegan”, porque algumas espécies dependem da vespa-do-figo para completar o seu ciclo de polinização.
Será verdade?
Como acontece com muitos temas relacionados com alimentação, a resposta existe, mas exige algum contexto. Neste artigo explicamos o que é realmente um figo, como funciona o seu ciclo natural e porque é que os figos que encontramos habitualmente à venda são considerados compatíveis com uma alimentação vegan.
O figo não é um fruto… é uma flor invertida
Apesar de lhe chamarmos fruto, o figo é, na realidade, uma infrutescência: uma estrutura carnosa que contém dezenas de pequenas flores no seu interior. Esta estrutura chama-se sicónio.
Ao contrário da maioria das plantas, as flores do figo desenvolvem-se escondidas no interior desta cavidade e nunca se abrem para o exterior. É precisamente esta característica que torna o seu processo de polinização tão invulgar.
O papel da vespa-do-figo
Na natureza, algumas espécies de figueira mantêm uma relação muito particular com um pequeno inseto conhecido como vespa-do-figo.
A vespa entra no sicónio para depositar os seus ovos e, durante esse processo, transporta pólen entre diferentes figueiras, permitindo a polinização. Trata-se de um dos exemplos mais interessantes de coevolução entre uma planta e um inseto.
Este processo deu origem à ideia, amplamente divulgada nas redes sociais, de que todos os figos contêm uma vespa no seu interior e, por isso, não seriam compatíveis com uma alimentação vegan.
Mas a realidade é diferente.
Os figos que consumimos não dependem deste processo
A maioria das variedades de figo cultivadas atualmente para consumo humano, incluindo muitas das que encontramos em Portugal, é partenocárpica.
Isto significa que os figos se desenvolvem sem necessidade de polinização, produzindo frutos de forma natural e consistente.
Variedades como o Pingo de Mel ou o Roxo de Torres Novas foram selecionadas ao longo de séculos precisamente para garantir uma produção estável e de qualidade, sem depender do ciclo natural envolvendo a vespa-do-figo.
Por isso, o cenário frequentemente descrito nas redes sociais não corresponde à realidade da grande maioria dos figos comercializados.
Então, afinal, o figo é vegan?
Do ponto de vista científico e técnico, sim.
Os figos que consumimos habitualmente não resultam de um processo que envolva a exploração animal nem dependem da presença da vespa-do-figo para o seu desenvolvimento.
É por isso que são, de forma generalizada, considerados compatíveis com uma alimentação vegan.
A polémica nasce sobretudo porque se confunde o ciclo natural de algumas espécies selvagens de figueira com as variedades cultivadas para consumo humano.
Porque é importante conhecer a origem dos alimentos?
Na gastronomia, compreender a origem dos produtos é tão importante como saber utilizá-los.
Muitas ideias que circulam sobre os alimentos têm uma base científica real, mas acabam por ser simplificadas ou retiradas do seu contexto, criando mitos que se propagam rapidamente.
O caso do figo é um excelente exemplo disso.
Uma história fascinante da biologia das plantas acabou por ser transformada numa afirmação absoluta que, na prática, não reflete a realidade dos produtos que chegam à nossa mesa.
Conclusão
A resposta é, afinal, bastante simples.
Embora algumas espécies de figueira mantenham uma relação natural com a vespa-do-figo, os figos comercializados e consumidos habitualmente em Portugal desenvolvem-se, na sua maioria, sem depender desse processo.
Por isso, podem ser considerados um alimento compatível com uma alimentação vegan.
Mais do que alimentar polémicas, este é um bom exemplo da importância de olhar para a ciência antes de aceitar como verdade tudo o que lemos nas redes sociais. Na gastronomia, o conhecimento continua a ser um dos melhores ingredientes.

