por Tiago Sousa
As recentes acusações contra o chef René Redzepi voltaram a colocar o Noma no centro das atenções. Fala-se de agressões, humilhações públicas e ambientes de pressão extrema. Se os factos vierem a confirmar-se, devem ser analisados com toda a seriedade e as responsabilidades apuradas.
Mas esta discussão não é apenas sobre o Noma.
É sobre a restauração.
Estive numa cozinha do grupo Noma
Nunca assisti a qualquer agressão física.
Mas vivi um nível de exigência e pressão que quase me levou ao burnout. Foi uma experiência marcante, que me obrigou a tomar uma decisão importante: sair e procurar um ambiente onde pudesse continuar a crescer sem colocar em causa a minha saúde.
Quando hoje leio muitos dos relatos que vieram a público, não posso dizer que me surpreendem.
Infelizmente, acredito que também não surpreendam muitos profissionais da restauração.
O problema não é a exigência
Existe uma tendência para transformar este debate numa escolha entre dois extremos.
Ou aceitamos culturas tóxicas.
Ou deixamos de exigir excelência.
Na minha opinião, essa escolha é falsa.
Quem procura estar entre os melhores — seja na gastronomia, no desporto, na ciência ou em qualquer outra área — sabe que a excelência exige disciplina, rigor e uma enorme capacidade de trabalho.
A exigência faz parte do caminho.
O abuso não.
São coisas diferentes.
A cultura que herdámos
Durante décadas, muitas cozinhas funcionaram com modelos de liderança assentes no medo.
Gritar era normal.
Humilhar era entendido como uma forma de ensinar.
Trabalhar até à exaustão era visto como prova de compromisso.
Muitos de nós crescemos profissionalmente nesse ambiente. E, por isso, existe um risco evidente: repetir com os outros aquilo que vivemos.
Quebrar esse ciclo exige consciência.
Exige perceber que é possível manter padrões muito elevados sem recorrer ao medo como ferramenta de gestão.
Liderar também é evoluir
Não conheço a realidade atual do Noma nem me cabe julgar aquilo que ainda está a ser investigado.
Mas acredito numa ideia simples: qualquer líder deve ser responsabilizado pelas suas ações e, ao mesmo tempo, ter a capacidade de evoluir.
Uma coisa não exclui a outra.
Um legado que ninguém pode ignorar
Independentemente desta polémica, é impossível falar da gastronomia contemporânea sem reconhecer a influência de René Redzepi.
O trabalho desenvolvido no Noma mudou a forma como muitos cozinheiros olham para o território, para a sazonalidade, para a fermentação, para os produtores e para a criatividade.
Essa influência existe, e continuará a existir.
Reconhecer esse legado não significa ignorar comportamentos que possam ter existido.
Tal como condenar comportamentos não obriga a apagar a importância histórica de um trabalho.
A conversa que a restauração precisa de ter
Talvez a verdadeira questão nunca tenha sido o Noma.
Talvez seja esta:
Como continuamos a formar grandes cozinheiros sem destruir pessoas pelo caminho?
A excelência continuará a exigir muito de quem a procura.
Mas o futuro da restauração dependerá da nossa capacidade para provar que é possível construir equipas extraordinárias sem recorrer a culturas de medo, humilhação ou violência.
Porque uma grande cozinha não se mede apenas pelo que serve à mesa.
Mede-se também pela forma como trata as pessoas que a constroem todos os dias.
Tiago Sousa é cofundador da MesaOito e trabalhou no estrelado Restaurant 108, em Copenhaga, pertencente ao grupo Noma.

