Provavelmente não sabia, mas já existem designações para o comum “estou-me nas tintas”.
O fenómeno sempre existiu. Apenas ganhou novos nomes: quiet quitting (desistência silenciosa) e quiet firing (despedimento silencioso). Embora descrevam situações diferentes, ambos revelam o mesmo problema: quando a comunicação desaparece, a relação entre empresa e colaborador começa lentamente a deteriorar-se.
Na restauração, isto não é novidade. Apenas passou a ter nome.
Quiet quitting: quando o colaborador deixa de acreditar
O horário é das 9h às 17h? Então às 17h em ponto está a sair.
Cumpre as tarefas, faz aquilo que lhe compete, mas deixou de vestir a camisola. Já não propõe melhorias, já não toma iniciativa e perdeu o envolvimento com o projeto.
Na maioria das vezes, isto não acontece de um dia para o outro.
É o resultado de pequenas desilusões acumuladas: falta de reconhecimento, ausência de feedback, promessas que ficaram por cumprir ou simplesmente a sensação de que o esforço extra nunca faz diferença.
O colaborador continua presente.
Mas, emocionalmente, já saiu há muito tempo.
Quiet firing: quando é a empresa que desiste
O fenómeno inverso acontece quando é a empresa que começa a desistir do colaborador.
Em vez de enfrentar uma conversa difícil, vão-se retirando responsabilidades, reduzindo autonomia, excluindo decisões e criando um ambiente onde a pessoa deixa de sentir que faz parte da equipa.
Nem sempre existe intenção.
Muitas vezes acontece de forma inconsciente.
Mas a mensagem acaba por ser a mesma:
“Já não contamos contigo.”
É frequente que este comportamento acabe por provocar precisamente aquilo que se pretendia evitar: um colaborador desmotivado, distante e, mais cedo ou mais tarde, a procurar outra oportunidade.
As duas faces do mesmo problema
Existe uma tendência para procurar culpados.
O colaborador deixou de se esforçar.
O gestor deixou de liderar.
A equipa perdeu compromisso.
Mas, na prática, estes fenómenos raramente têm uma única causa.
Podem resultar de liderança fraca, excesso de trabalho, falta de reconhecimento, expectativas desalinhadas ou más condições de trabalho.
O que quase nunca ajuda é o silêncio.
Quando deixamos de falar, começamos a interpretar.
As interpretações substituem as conversas.
Os pequenos problemas acumulam-se.
E aquilo que podia ter sido resolvido numa conversa de quinze minutos transforma-se num conflito que parece impossível de recuperar.
O que pode ser feito?
Não existem soluções milagrosas.
Existem hábitos.
Feedback regular.
Objetivos claros.
Reconhecimento quando ele é merecido.
Conversas difíceis quando elas são necessárias.
Líderes que escutam antes de assumir.
Colaboradores que falam antes de desistir.
Porque nenhuma equipa cresce quando cada lado espera que seja o outro a dar o primeiro passo.
Conclusão
Na restauração, onde tudo acontece depressa, existe uma enorme tendência para adiar conversas difíceis.
Mas aquilo que não se diz hoje acaba quase sempre por se transformar num problema maior amanhã.
O quiet quitting e o quiet firing não começam quando alguém se despede.
Começam muito antes.
Começam no dia em que duas pessoas deixam de falar honestamente uma com a outra.
Fontes:
https://visao.pt/atualidade/sociedade/2022-10-05-depois-da-desistencia-silenciosa-chega-o-despedimento-silencioso/
https://visao.pt/atualidade/sociedade/2022-08-30-o-que-e-a-desistencia-silenciosa-a-mais-recente-tendencia-no-mundo-do-trabalho-alimentada-pelas-redes-sociais/
https://whatnext.law/2023/01/26/perspetiva-juridica-quiet-quitting-e-quiet-firing/
https://www.testgorilla.com/blog/quiet-quitting-quiet-firing/

