Abrir um restaurante em Portugal é um sonho partilhado por muitos, mas o setor é notoriamente difícil e competitivo. A faturação da restauração e similares subiu 9% no ano 2023 e este ano prevê-se um crescimento mais moderado. Depois da crise da inflação, e mesmo contando com os problemas no mercado de trabalho, as coisas podiam estar a melhorar. E uma das principais razões para que isso não aconteça é a falta de preparação e formação dos proprietários e gerentes, dos que estão nos setor, mas fundamentalmente dos que querem estar nele. Ao contrário de muitas outras profissões, não há exigência legal para que quem abra um restaurante tenha uma formação especializada. Assim, qualquer pessoa pode abrir um restaurante sem provas dadas ou um diploma na área. E isso traz desafios que vão comprometer o sucesso a longo prazo.
A Realidade do Setor e a Falta de Capacitação
Vamos supor que quer abrir um consultório médico, por exemplo. Até lá chegar, exigem-se anos de estudo e certificações, e bem. Mais, é obrigatório que se faça continuamente formação acerca das práticas e avanços que vão sendo desenvolvidos. Para abrir um restaurante basta ter capacidade financeira, uma boa ideia e uma licença. Ou apenas uma ideia, já que o financiamento é simples e a regulamentação basicamente não existe. Assim, qualquer pessoa pode abrir um restaurante sem provas dadas ou um diploma na área. E isso traz desafios que vão comprometer o sucesso a longo prazo, quer desse novo negócio, quer dos restantes negócios que já existem. Não queremos ser mal interpretados, uma vez que a paixão pelo setor e pelo serviço são fundamentais, mas isso não chega. O conhecimento especializado em gestão de custos, segurança alimentar, logística, liderança, e muitos outros fatores capitais são muitas vezes deixados de lado.
Se é um excelente cozinheiro, saiba que isso é um ingrediente fundamental para o sucesso do seu negócio, mas é tudo menos líquido que o conduza até a ser um proprietário de sucesso. Imagine um excelente arquiteto que decide abrir uma construtora: embora o arquiteto tenha uma visão técnica e criativa para projetos, a gestão de uma empresa de construção exige habilidades em logística, gestão de pessoal, controlo financeiro e marketing – áreas que vão muito além do desenho e concepção de edifícios. A competência técnica, a sua “especialidade”, sozinha, deixa espaço a várias lacunas que podem levar a falhas significativas na operação diária e a um ambiente de trabalho desorganizado, stressante, tornando os seus sonhos em autênticos pesadelos.
O Panorama Atual
Nos grandes centros urbanos urbanos há coisas que já estão a mudar, e não são boas notícias, se querem que vos diga: O aumento turístico, e subsequente “El Dorado” que tem levado muitos empreendedores na última década a convencerem-se que “dá para tudo” está a dar as últimas: Há cada vez mais restaurantes nas zonas turísticas, particularmente em Lisboa mas também no Porto, e com a crise habitacional e o aumento exponencial de oferta, é difícil fidelizar os locais, seduzir os turistas e obter estabilidade por vários anos, compensando o investimento que foi feito. Esta tendência, a verificar-se, vai expandir-se a outras áreas mais povoadas e turísticas no país, levando a falências e prejuízos. Num mercado altamente competitivo e com consumidores cada vez mais exigentes, já não há espaço para a improvisação, e se restaurantes bem geridos, alguns até históricos, têm dificuldades em se manter-se de pé, imagine-se os outros.
Então Não Devem Abrir Restaurantes Novos?
Não, nada disso. Há espaço e haverá sempre espaço para renovar e criar novas ideias e conceitos, em todas as localizações. A pergunta é: como o fazer? Abrir um restaurante sem formação prévia não é um erro crasso, inultrapassável. Esse erro está em ignorar a necessidade de obter suporte e aconselhamento.
“Vai abrir um brunch numa rua onde já existem dois? Pretende atrair novos clientes ou competir pelos que já frequentam a zona? A sua pizzaria faz entregas? Excelente, mas as outras também. Qual é a sua vantagem competitiva? O que o diferencia da concorrência? O que vai oferecer que ninguém consiga replicar?”– Tantas perguntas que poderiam ser feitas, e muitas que também não temos as respostas: É preciso estudar, pensar, trabalhar sobre esses temas e encontrar soluções.
A resposta passa pela preparação, estudar o mercado e investir na qualidade. Abrir um restaurante continua a ser possível, mas agora, mais do que nunca, é preciso um diferencial. Que o setor seja aberto e acessível é positivo, mas cabe a cada novo proprietário avaliar se está preparado para enfrentar os desafios e se está disposto a procurar o conhecimento necessário para triunfar. E aos que já existem, se têm o que será preciso para continuar a crescer.
Para Onde Vai, Afinal, a Restauração em Portugal?
A restauração em Portugal tem de caminhar para um momento de reinvenção e profissionalização, onde a improvisação não tem lugar. Acreditamos que o futuro passa por conceitos diferenciadores, gestão estratégica e conhecimento técnico que sustentem as operações a longo prazo. Restaurantes que queiram prosperar terão de se adaptar à realidade de consumidores mais conscientes e seletivos, enfrentar os desafios de um mercado saturado e focar na qualidade, tanto do produto quanto da experiência. Mais do que abrir portas, será crucial estar preparado para se destacar e sobreviver neste cenário em transformação.
Se o sector não for capaz de se adaptar e investir em conceitos diferenciadores, formação e gestão profissional, o cenário será marcado por uma elevada taxa de falências e um mercado ainda mais saturado e desorganizado. Muitos negócios não conseguirão competir, resultando no encerramento de restaurantes e na perda de empregos. Além disso, a qualidade da oferta acabará por diminuir, afastando consumidores exigentes e prejudicando a imagem do setor como um todo. O turismo, que tanto alimenta a restauração, também será afetado, pois os visitantes procuram experiências autênticas e de alta qualidade, algo que um setor estagnado dificilmente oferecerá. Em última instância, será o cliente, o empresário e o próprio país a sofrerem as consequências de um setor incapaz de evoluir.

